domingo, 26 de julho de 2026

Caso Pavesi: entenda a investigação sobre a morte e retirada ilegal de órgãos de criança em MG

 Prisão de médico apontado como chefe de esquema é episódio mais recente de caso investigado há mais de duas décadas em Poços de Caldas.

Por g1 Sul de Minas



A prisão do médico Álvaro Ianhez, condenado a 21 anos e 8 meses de prisão por homicídio duplamente qualificado, em maio de 2023, foi o episódio mais recente de um caso que se arrasta por mais de duas décadas e que expôs o funcionamento de um esquema ilegal de retirada e tráfico de órgãos humanos que, conforme as investigações, acontecia em Poços de Caldas no início dos anos 2000.

O médico foi denunciado por chefiar a entidade MG Sul Transplantes, que realizava as retiradas dos órgãos e os encaminhava aos possíveis receptores. A organização foi apontada pelo Ministério Público como “atravessadora” em um esquema de tráfico de órgãos humanos. O pai do menino, Paulo Pavesi, criticou o fato do médico ter sido julgado por videoconferência e não ter se sentado no banco dos réus.

    O caso Pavesi ganhou repercussão nacional em 2002, quando quatro médicos foram denunciados pelo Ministério Público por homicídio qualificado de Paulo Veronesi Pavesi, que na época tinha 10 anos.

    Outros cinco médicos acusados de participação no caso também foram condenados em 1ª instância, mas seguem em liberdade.

    O g1 lista abaixo os principais pontos do que foi investigado pela autoridades ao longo dos últimos 20 anos.

    O que aconteceu?

    No dia 19 de abril de 2000, há exatos 22 anos, Paulo Veronesi Pavesi, então com 10 anos, caiu da grade do playground do prédio onde morava e foi levado para o pronto-socorro do Hospital Pedro Sanches. De acordo com o Ministério Público, o menino teria sido vítima de um erro médico durante uma cirurgia e foi levado para a Santa Casa de Poços de Caldas, onde teve os órgãos retirados por meio de um diagnóstico de morte encefálica, que conforme apontaram as investigações, teria sido forjado.

    Paulinho Pavesi morreu aos 10 anos após cair, passar por cirurgia e ter os órgãos removidos — Foto: Paulo Pavesi/ Arquivo Pessoal

    Paulinho Pavesi morreu aos 10 anos após cair, passar por cirurgia e ter os órgãos removidos — Foto: Paulo Pavesi/ Arquivo Pessoal

    Após receber uma conta hospitalar no valor de R$ 11.668,62, o pai do menino, Paulo Airton Pavesi, questionou as cobranças e deparou-se com dados que não condiziam com o que havia sido feito, inclusive com a cobrança de medicamentos para remoção de órgãos, que oficialmente é custeada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

    O pai do menino, Paulo Pavesi, começou a investigar por conta própria e a reunir provas para mostrar as irregularidades. Paulo Pavesi deixou o Brasil em 2008 e passou a viver na Europa, alegando receber ameaças. Toda a história resultou em um livro de 400 páginas lançado em 2014: “Tráfico de Órgãos no Brasil – O que a máfia não quer que você saiba”.

    A descoberta de um suposto esquema para a retirada ilegal de órgãos de pacientes em Poços de Caldas fez com que a Santa Casa da cidade fosse descredenciada para a realização de transplantes e remoção de órgãos no ano de 2002.

    A entidade que geria os trabalhos na cidade, MG Sul Transplantes, também foi extinta no município. Quatro médicos: José Luis Gomes da Silva, José Luis Bonfitto, Marco Alexandre Pacheco da Fonseca e Álvaro Ianhez foram denunciados pelo Ministério Público por homicídio qualificado do menino Pavesi.

    O caso foi tema de discussões também no Congresso Nacional em 2004, durante a CPI que investigou o tráfico de órgãos.

    Pai lança livro sobre o caso do menino Pavesi em Poços de Caldas — Foto: Reprodução EPTV

    Pai lança livro sobre o caso do menino Pavesi em Poços de Caldas — Foto: Reprodução EPTV

    O que as investigações apontaram?

    Na denúncia oferecida pelo Ministério Público à Justiça, consta que cada um dos médicos envolvidos cometeu atos encadeados que causaram a morte do menino. Entre eles, a admissão em hospital inadequado, a demora no atendimento neurocirúrgico, a realização de uma cirurgia feita por um profissional sem habilitação legal que resultou em erro médico e a inexistência de um tratamento efetivo e eficaz. A denúncia aponta também fraude no exame que determinou a morte encefálica do menino.

    Ainda na época, o médico Álvaro Ianhez foi denunciado por chefiar a entidade MG Sul Transplantes, que realizava as retiradas dos órgãos e os encaminhava aos possíveis receptores. A organização foi apontada pelo Ministério Público como “atravessadora” em um esquema de tráfico de órgãos humanos.

    Sentença de médico acusado de matar o menino Pavesi saiu no segundo dia de júri. — Foto: Fórum de BH / Divulgação

    Sentença de médico acusado de matar o menino Pavesi saiu no segundo dia de júri. — Foto: Fórum de BH / Divulgação

    O "Caso Pavesi", também chamado de "Caso 0", deu origem a uma investigação que inclui outros sete inquéritos envolvendo mortes de outros pacientes que também teriam tido os órgãos retirados irregularmente.

    Em 2014, o juiz responsável pelo caso, Narciso Alvarenga Monteiro de Castro, afirmou estar certo do envolvimento dos profissionais com a retirada os órgãos do menino Paulo Pavesi: "Eles sabiam que a criança estava viva".

    Os médicos foram presos?

    Ao longo desses mais de 20 anos, os processos foram desmembrados e vários julgamentos realizados, adiados ou anulados. O julgamento de Álvaro Ianhez, apontado como um dos líderes do esquema, já era para ter acontecido há 10 anos, mas só ocorreu agora após vários adiamentos e julgamentos de habeas corpus.

    O caso foi desmembrado e transferido de Poços de Caldas para Belo Horizonte em agosto de 2014, a pedido do Ministério Público, para evitar a influência econômica e social dos médicos sobre os jurados.

    Em janeiro de 2014, três médicos acusados de participação no caso, Sérgio Poli Gaspar, Celso Roberto Frasson Scafi e Cláudio Rogério Carneiro Fernandes, foram condenados a penas que variam de 14 a 18 anos de prisão em regime fechado por participação no caso. Eles não foram a júri popular.

    Médico Álvaro Ianhez será julgado nesta segunda-feira (imagem de arquivo) — Foto: Arquivo EPTV/ TV Globo

    Médico Álvaro Ianhez será julgado nesta segunda-feira (imagem de arquivo) — Foto: Arquivo EPTV/ TV Globo

    Os médicos Celso Roberto Frasson Scafi e Cláudio Rogério Carneiro Fernandes chegaram a ficar presos por 30 dias e ganharam na Justiça o direito de recorrer da sentença em liberdade. Já Sérgio Poli Gaspar ficou foragido por um mês e após se entregar passou apenas um dia preso. Ele também poderia recorrer em liberdade.

    No entanto, a sentença foi anulada pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais em maio de 2016, que entendeu que o caso deveria ter sido julgado por um júri popular, e o processo retornou para Poços de Caldas. Em setembro de 2021, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal restaurou a sentença original que condenou os três médicos.

    Em janeiro de 2021, outros dois médicos acusados de participação, José Luis Gomes da Silva e José Luis Bonfitto foram condenados a 25 anos de prisão. Já Marco Alexandre Pacheco da Fonseca foi absolvido pelo júri.

    O "Caso Pavesi", também chamado de "Caso 0", deu origem a uma investigação que inclui outros sete inquéritos envolvendo mortes de outros pacientes que também teriam tido os órgãos retirados irregularmente.

    O que aconteceu nos outros inquéritos?

    Em fevereiro de 2013, os médicos João Alberto Góes Brandão, Celso Roberto Frasson Scafi, Cláudio Rogério Carneiro Fernandes e Alexandre Crispino Zincone foram condenados a penas que variavam de oito a 11 anos e seis meses de prisão em regime fechado por homicídio doloso, compra e venda de órgãos humanos, violação de cadáver e realização de transplante irregular.

    A condenação foi referente à retirada de órgãos de José Domingos de Carvalho, morto aos 38 anos em abril de 2001, na Santa Casa de Poços de Caldas. Os médicos recorreram da sentença e continuaram em liberdade. Ainda no mesmo ano, os médicos conseguiram um habeas corpus que os permitiu atuar novamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

    José Domingos de Carvalho (no detalhe) foi uma das vítimas do esquema, conforme a Justiça — Foto: Reprodução EPTV

    José Domingos de Carvalho (no detalhe) foi uma das vítimas do esquema, conforme a Justiça — Foto: Reprodução EPTV

    Já em março de 2015, outros três médicos foram presos acusados de irregularidades na constatação da morte e remoção de órgãos de um homem de 41 anos em 2001. O nefrologista João Alberto Góes Brandão, o urologista Cláudio Rogério Carneiro Fernandes e o radiologista Jeferson André Saheki Skulski foram acusados da retirada ilegal de córneas e rins de Paulo Lourenço Alves, na época com 41 anos, na Santa Casa de Poços de Caldas.

    Eles foram condenados a 19, 17 e 18 anos, respectivamente. Outros três médicos envolvidos com o caso permaneceram em liberdade, mas receberam medidas cautelares. Dois dos médicos acusados por este crime – João Alberto Góes Brandão e Cláudio Rogério Carneiro Fernandes - já tinham sido condenados em outros casos da chamada ‘Máfia dos Órgãos’.

    As condenações provocaram também a reabertura do inquérito referente à morte de Carlos Henrique Marcondes, o Carlão, que foi diretor administrado do Hospital Santa Casa até o ano de 2002. Ele foi encontrado morto na época com um tiro na boca dentro do próprio carro.

    Médicos João Alberto Brandão, Cláudio Rogério e Jeferson Skulski foram detidos em Poços de Caldas — Foto: Reprodução EPTV

    Médicos João Alberto Brandão, Cláudio Rogério e Jeferson Skulski foram detidos em Poços de Caldas — Foto: Reprodução EPTV

    O que os médicos disseram?

    Em fevereiro de 2014, o então presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), Itagiba de Castro Filho, disse que os médicos que foram condenados na época tinham passado por sindicâncias dentro do órgão. Ele afirmou que nenhuma conduta antiética foi encontrada, e, por isso os processos foram arquivados.

    Na época, uma associação de médicos da cidade fez uma campanha publicitária para anunciar a "inocência dos médicos", o que, conforme o MP, comprometia a integridade do júri. Desde então, o processo foi desaforado, ou seja, transferido para Belo Horizonte.

    Os médicos negaram qualquer irregularidade, tanto nos exames, quanto nos transplantes aos quais o garoto foi submetido.

    Andamento dos Processos

    Em nota enviada ao g1 Sul de Minas no dia 12 de maio, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais informou que após o julgamento do STF, o processo de Celso, Cláudio e Sérgio retornou ao TJMG em 10/02/2023. Em seguida, foi aberta vista às partes para se manifestarem antes do julgamento da apelação. No presente momento, os autos estão em carga na Procuradoria-Geral de Justiça e a apelação ainda não foi julgada. Os três réus estão soltos.

    José Luis Gomes da Silva e José Luis Bonfitto foram condenados pelo Tribunal do Júri e na oportunidade, o juiz-presidente decretou a prisão dos acusados. Em seguida, eles impetraram habeas corpus, cuja ordem foi denegada por esta 1ª Câmara Criminal. Os réus impetraram outro habeas corpus perante o Superior Tribunal de Justiça, que concedeu a ordem e mandou recolher o mandado de prisão. Dessa decisão, não houve recurso do Ministério Público. Ou seja, eles estão soltos.

    Quanto ao andamento do feito principal, o processo chegou ao gabinete do desembargador Flávio Leite, do TJMG, em 04/05/2023 e o recurso ainda não foi julgado.

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