domingo, 16 de agosto de 2026

“AO ARREPIO DA MELHOR PRÁTICA MÉDICA”

 Clínica psiquiátrica e seu ex-diretor são condenados em duas instâncias por manter a escritora Helena Lahis internada contra a própria vontade


Helena Lahis ainda luta para se reerguer após internação involuntária - Fe Pinheiro

O dia 28 de setembro de 2019, a escritora Helena Lahis pediu o divórcio de seu ex-marido, Paulo Henrique de Lima, presidente da Universal Music Brasil. Três semanas depois, em uma tarde de domingo, uma psiquiatra amiga da família apareceu acompanhada por dois enfermeiros no quarto onde ela estava escrevendo, em um apartamento na Urca, no Rio de Janeiro. Avisou que havia sido chamada por Lima — e que Lahis seria internada em uma instituição psiquiátrica. A escritora acabou conduzida até uma ambulância, colocada em uma maca e levada até a Espaço Clif Mente e Vida, uma clínica de alto padrão em Botafogo.

Lahis foi submetida a uma revista completa — teve a bolsa retirada, ficou nua, agachou três vezes, soprou um bafômetro, fez exame toxicológico. Em seguida, foi internada por um plantonista. O psicanalista que acompanhava Lahis havia três anos se opôs à internação, insistindo que sua paciente não tinha nenhum transtorno mental. Ainda assim, ela foi mantida a contragosto na clínica, acompanhada por um outro psiquiatra contratado pelo ex-marido. O confinamento durou 21 dias e só terminou quando o então namorado — hoje seu companheiro — e um grupo de amigas se mobilizaram para conseguir um habeas corpus. Assim que foi libertada, a escritora foi para uma delegacia denunciar a internação. O episódio deu início a uma barafunda de processos na Justiça. Hoje são seis ações, entre criminais e cíveis, em que ela busca reparação e a condenação dos envolvidos.

Sete anos depois do episódio, Lahis conseguiu uma vitória judicial, em duas instâncias. Em janeiro deste ano, a juíza Marisa Simões Mattos Passos, da 1ª Vara Cível da Comarca da capital, condenou a clínica Espaço Clif Mente e Vida e seu diretor técnico na época, Gabriel Bronstein Landsberg, ao pagamento de 3 mil reais por danos materiais e 200 mil reais por danos morais — valores que ainda devem ser turbinados pelo acréscimo de juros e correção monetária, custas processuais e honorários advocatícios. Os réus entraram com recurso. No início da tarde da última quarta-feira, dia 5 de agosto, três desembargadores da 20ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, mantiveram, por unanimidade, a condenação. O acórdão foi publicado na manhã da última segunda-feira, 10 de agosto. A defesa dos réus ainda pode recorrer.

Os autos do processo estão em segredo de Justiça. Mas tanto a sentença da primeira instância quanto o acórdão do TJ-RJ estão disponíveis nos sistemas online de busca processual. Ambos são peças jurídicas eloquentes sobre a conduta dos condenados.


Adecisão da primeira instância assinada pela juíza Passos foi baseada na lei 10.216/2001, que regula os direitos das pessoas com transtornos mentais, e no Código de Defesa do Consumidor – a magistrada entendeu que as relações entre a escritora, a Clif Mente e Vida e o seu ex-diretor técnico eram também de consumo. O texto é uma coleção de frases fortes.

Lahis foi levada para a clínica pela psiquiatra e amiga da família, Maria Antonia Serra Pinheiro. A médica entrou no quarto da escritora anunciando a medida por causa das respostas de um questionário-padrão que apontavam “afirmativamente” para um quadro de hipomania – transtorno mental cujos sintomas são autoestima excessivamente elevada, agitação, aumento exacerbado de energia, de produtividade e de libido. O questionário, contou Serra Pinheiro, havia sido preenchido pelo ex-marido, Paulo Lima. Na decisão, a juíza afirmou que o quadro clínico era vago, indeterminado e não justificava uma internação. E, com base nele, “a autora sobreviveu a 21 longuíssimos dias de medicações desnecessárias e entorpecentes, privação da liberdade e exames vexatórios que, ao arrepio da melhor prática médica, foram possibilitadas e facilitadas pela conduta incauta dos réus”.

 A Lei 10.216/2001 só permite a internação involuntária com laudo médico detalhado. E mais: só é indicada se todas as alternativas extra-hospitalares se mostrarem insuficientes, quando não houver mais nenhum recurso — nem remédio, nem terapia — capaz de ajudar os pacientes psiquiátricos. A defesa da clínica Clif e de Landsberg, o diretor à época, citou como justificativa para o confinamento uma virada abrupta nas atitudes de Lahis, sempre relatada pelo ex-marido. Ela teria apresentado mudanças de comportamento, como virar a noite escrevendo ou se atrasar em encontros marcados com as filhas, e modificações nos temas de sua escrita (deixou de escrever livros infantojuvenis e optou pela literatura adulta). Também teria histórico de transtornos psiquiátricos em sua família, o que ajudaria no diagnóstico de transtorno bipolar. A juíza Passos escreveu em sua sentença: “nenhum desses elementos em separado ou cotejados em conjunto, justificariam, mesmo que minimamente, a conclusão médica ou a medida extrema adotada.”

A juíza da 1ª Vara Cível afirmou que a clínica e seu diretor “se furtaram de investigar, com a mínima seriedade, o histórico clínico da autora que, conforme asseverado pelo psicoterapeuta que a acompanha há anos, nunca apresentou qualquer indício de patologias psiquiátricas”. Passos definiu a história como uma “multiplicidade de condutas inconsequentes”. E concluiu:

“(...) Em casos especiais, a internação involuntária é a única forma possível de salvaguardar a vida do paciente, uma vez que, de fato, apresenta um risco real e constante a sua própria vida. Não é, todavia, a situação aqui enfrentada. Ao invés disso, os réus aceitaram, sem resistência, o diagnóstico clínico de uma médica que, além de não pertencer ao seu quadro próprio de especialistas, nunca acompanhou pessoalmente a autora e baseou o seu diagnóstico de hipomania, exclusivamente, no relato de seu ex-marido — direto interessado na medida.”

No recurso que apresentou no Tribunal de Justiça, a defesa da clínica e de seu ex-diretor recorreu a três argumentos. No primeiro, pediu que a sentença fosse anulada porque a juíza não solicitou uma perícia médica na escritora. Também alegou que a internação foi regular e que, mesmo que algo errado tivesse sido feito, eles não teriam responsabilidade civil no episódio. E, subsidiariamente — o que fora do juridiquês pode ser traduzido como “caso os argumentos anteriores não emplaquem” —, pediu a redução da indenização por danos morais, por considerá-la excessiva.


No julgamento no TJ, o desembargador e relator do caso, Fernando Cerqueira Chagas, pediu a manutenção integral da sentença original e foi seguido pelos dois colegas. O acórdão publicado na última segunda-feira afirma que o conjunto de provas produzidas nos autos era suficiente para dispensar um exame pericial — antes de sua decisão, a juíza ouviu várias testemunhas, entre médicos, familiares e amigos da escritora. E, além disso, a própria clínica e seu ex-diretor não haviam pedido essa perícia no momento certo do processo.

O desembargador lembrou que internação psiquiátrica involuntária é uma medida excepcional, que só pode acontecer quando a legislação é rigorosamente seguida. E isso, disse o acórdão, não foi cumprido nesse caso. Ao contrário: “As provas orais indicaram que a internação decorreu exclusivamente de informações prestadas pelo então cônjuge, sem respaldo técnico suficiente.” Levando em conta o tempo em que Lahis ficou privada da sua liberdade e o sofrimento que isso causou, o tribunal entendeu que o valor da indenização fixado na sentença “cumpre o seu caráter dúplice de punição e compensação, inexistindo fundamento para sua redução”.

O Tribunal de Justiça foi ainda mais longe. Aplicou o Protocolo de Julgamento com Perspectiva de Gênero, um guia criado em 2023 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que orienta juízes a considerar desigualdades de poder entre homens e mulheres ao julgar um caso, para analisar se a clínica seguiu a lei ou apenas “acolheu a vontade do cônjuge sem a necessária fundamentação médica”. O desembargador escreveu: “a história da assistência psiquiátrica revela que mulheres, em diferentes contextos, foram submetidas à medicalização e à institucionalização de comportamentos dissidentes, circunstância que recomenda especial cautela quando a privação de liberdade decorre de iniciativa do próprio cônjuge ou de familiar próximo.”

Procurada pela piauí, Helena Lahis afirmou que não pode comentar detalhes sobre os processos que correm em segredo de Justiça. Mas, em mensagem enviada por WhatsApp, comentou a vitória judicial, que recebeu dois dias antes do aniversário de vinte anos da Lei Maria da Penha. “A sensação da justiça sendo feita é um bálsamo, é uma sensação de validação da minha dignidade, da minha honra, da minha lucidez, da minha liberdade — eu me senti segurando meu coração na palma das minhas mãos. O que me alimenta é saber que, embora a repercussão para minha vida, pessoalmente falando, seja muito dura, eu sei que essa reposição da verdade vai ter consequência na vida de muitas mulheres.”

Apesar dessa vitória na esfera cível, a escritora afirmou que, na verdade, a história de sua internação é uma violência que continua em andamento. “Reagir por todos esses anos me custou o abandono absoluto da minha família, a perda de pessoas que eu considerava meus amigos, a minha saúde financeira, a exaustão e o aparecimento de problemas de saúde com sintomas somáticos. E o pior de tudo, a dor mais profunda que uma mãe pode ter, que é o rompimento das minhas filhas comigo pelo simples fato de eu não ter me calado.”

Lahis complementou: “Vivo um luto de filhas vivas que não me larga, que não me abandona. Não tem um dia, um instante em que essa dor não me atravesse por inteiro. Há dez meses, minhas filhas não falam comigo. Romperam a relação desde que elas foram arroladas por um dos réus, no caso o pai, para serem testemunhas dele. Eu participei dessa audiência como ouvinte, e ali naquele dia elas me bloquearam em todas as formas de comunicação. E hoje não existe mais relação entre nós. O projeto para me calar, para me marginalizar diante da denúncia, continua em curso.”

Os detalhes da internação involuntária de Helena Lahis foram descritos na reportagem A Internação, publicada pela piauí na edição de abril de 2025. Além da batalha judicial, o caso resultou em uma família fraturada. Por ter apoiado Paulo Lima na internação, Maria Luiza Baumgarten, a mãe de Lahis, chegou a ser indiciada por cárcere privado. Logo que saiu da clínica, com medo de ser internada de novo, a escritora pediu uma medida protetiva contra a mãe. Lahis tem duas filhas, que na época da internação tinham 14 e 19 anos. A relação com ambas, definida por vários amigos ouvidos pela reportagem como “umbilical” antes do episódio, se deteriorou. A escritora perdeu contato com os irmãos, que não a perdoaram por ter levado o caso a público e as ações judiciais adiante.

A reportagem também leu páginas de investigações sigilosas no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro sobre a conduta de vários psiquiatras envolvidos na internação e alguns dos processos principais — Paulo Lima, Maria Antonia Serra Pinheiro, a clínica e seu ex-diretor foram denunciados em agosto de 2023 pela 2ª Promotoria de Investigação Penal de Violência Doméstica, do Ministério Público do Rio de Janeiro, e hoje são réus em processos criminais que correm no Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.

O ex-marido de Lahis responde pelo crime de “privar alguém de sua liberdade mediante sequestro ou cárcere privado” e pelo delito de “invasão de dispositivo automático” — porque ele encontrou as mensagens entre a escritora e seu namorado depois de entrar em seu iPad e ler seus e-mails. Serra Pinheiro é ré por cárcere privado. Gabriel Bronstein Landsberg, como testemunhou a oficial de Justiça que foi até a clínica levar o habeas corpus, pediu que Lahis, antes de deixar o local, assinasse uma declaração de internação voluntária. Responde, então, por fraude processual, por tentar forjar uma internação consentida para se livrar de eventuais enroscos na Justiça.

A leitura dos autos mostrou a penosa cronologia de um caso em que ninguém se responsabiliza pelo que aconteceu com Lahis. O ex-marido falava em interná-la pelo menos um dia antes de procurar uma opinião médica, em alguns casos dizendo a amigos que “o demônio e a pombagira estavam incorporados em Helena” — mas diz que só seguiu orientações dos psiquiatras. Os psiquiatras envolvidos na internação dão voltas em torno da complexidade do diagnóstico de hipomania. A clínica diz que os psiquiatras e a família dela é que optaram pela internação. Com as decisões judiciais em curso, isso está começando a mudar. 

sábado, 15 de agosto de 2026

Médica americana que matou seus três filhos pesquisou antes sobre alucinações, psicose e efeitos de remédios

 Clancy é acusada de matar os três filhos em 2023; defesa afirma que ela sofria de transtorno bipolar e psicose pós-parto, enquanto a promotoria sustenta que os crimes foram planejados.

Por Redação g1

Lindsay Clancy durante seu julgamento por homicídio. — Foto: AP/Josh Reynolds, Pool

Lindsay Clancy durante seu julgamento por homicídio. — Foto: AP/Josh Reynolds, Pool


Semanas antes de estrangular seus três filhos, em janeiro de 2023, Lindsay Clancy fez diversas buscas na internet sobre alucinações, psicose e os efeitos colaterais de remédios que estava tomando. A informação veio de uma análise do celular de Clancy, apresentada nesta quinta-feira (13) durante seu julgamento por assassinato.

    Segundo os dados apresentados, no fim de dezembro de 2022 Clancy pesquisou sobre métodos de suicídio, transtorno bipolar e insônia.

    Já em janeiro, passou a buscar informações sobre depressão pós-parto. Em outubro do mesmo ano, ela também havia escrito um bilhete detalhado no qual expressava dúvidas sobre suas escolhas como mãe, questionava a decisão de ter parado de amamentar o filho mais novo, então com 8 meses, e reconsiderava os planos do casal de ter um quarto filho.

    A defesa argumenta que a ex-enfermeira obstétrica de 36 anos agia sob efeito de transtorno bipolar e psicose pós-parto — uma condição rara que pode alterar a percepção de realidade de mulheres após o parto. Um psiquiatra forense diagnosticou Clancy com essas duas condições depois dos assassinatos.

    No bilhete, ela demonstrava principalmente receio de não conseguir dar ao filho caçula a mesma atenção dedicada aos dois mais velhos, de 3 e 5 anos, e descrevia sentir-se sobrecarregada pelo excesso de informação sobre maternidade a que tinha se exposto nos últimos anos.

    Clancy se declarou inocente das acusações de assassinato das crianças Callan, Dawson e Cora. O pai das crianças as encontrou no porão da casa da família, na cidade litorânea de Duxbury, ao sul de Boston. A mãe foi encontrada no quintal, após pular pela janela do segundo andar — ela ficou paraplégica em consequência da queda.

    Mensagens trocadas entre Lindsay e seu então marido, Patrick Clancy, mostram o casal lidando com a rotina da paternidade no dia do crime, incluindo um momento em que ele a elogiou como mãe e ela respondeu com emojis. O perito da Polícia Estadual de Massachusetts, Tim Chiappini, leu essas mensagens durante o julgamento, que tem sido transmitido ao vivo e atraído grande atenção pública, com jornalistas e espectadores lotando o tribunal.

    Os advogados de Clancy não negam que ela matou as crianças, mas defendem que o júri não deve responsabilizá-la criminalmente, alegando que ela agia sob transtorno mental e acreditava ouvir vozes ordenando que tirasse a vida dos filhos e a própria.

    Já a promotoria sustenta que houve premeditação: segundo os promotores, Clancy teria se articulado para tirar o marido de casa — mandando-o comprar comida e ir à farmácia, no dia 24 de janeiro de 2023 — antes de estrangular as crianças com faixas elásticas de exercício. A promotora Shanan Buckingham pediu ao júri que não tratasse o caso como um debate público sobre saúde mental feminina.

    Se condenada por assassinato, Clancy pode pegar prisão perpétua sem direito a liberdade condicional. Caso seja considerada não responsável criminalmente por conta da doença mental, ela seria internada em uma instituição psiquiátrica estadual.

    A defesa afirma que Clancy buscou ajuda por diversos caminhos antes da tragédia: consultou vários profissionais de saúde mental, testou diferentes medicamentos prescritos, ligou para uma linha de apoio a pessoas em crise, foi a um pronto-socorro, tentou (sem sucesso) vaga em um programa hospitalar de tratamento intensivo para mulheres com problemas psiquiátricos pós-parto, e chegou a se internar voluntariamente em uma clínica psiquiátrica por alguns dias.

    Lindsay Clancy durante seu julgamento por homicídio. — Foto: David L. Ryan/The Boston Globe via AP, Pool

    Lindsay Clancy durante seu julgamento por homicídio. — Foto: David L. Ryan/The Boston Globe via AP, Pool

    Segundo a família e os advogados, em vez de melhorar, seu quadro piorou com a combinação de remédios psiquiátricos prescritos — alguns deles considerados problemáticos para pacientes bipolares.

    A promotoria, por sua vez, busca demonstrar que Clancy teve acesso a uma ampla rede de serviços de saúde mental, mas ignorou orientações médicas e interrompeu o uso de alguns medicamentos por conta própria.

    Vários profissionais que a atenderam foram ouvidos como testemunhas e afirmaram que ela nunca mencionou um plano concreto para se machucar ou machucar os filhos, nem apresentou sinais de psicose ou mania — embora tenha relatado pensamentos suicidas.

    Antes de matar seus filhos, Lindsay Clancy pesquisou sobre alucinações | G1

    sábado, 8 de agosto de 2026

    Biomédica indiciada por morte de paciente é presa pela terceira vez

     Lorena Marcondes alegou que estava passando mal e foi levada para um hospital onde permanece internada sob escolta

    09/05/2024 

    Lorena Marcondes deixou o presídio Floramar em Divinópolis no dia 2 de maio

    crédito: Reprodução/Redes Sociais

    A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) prendeu novamente a biomédica Lorena Marcondes, de 34 anos, em Nova Lima, na Região Metropolitana, nesta quinta-feira (9/5), oito dias após ela deixar a prisão. Indiciada por homicídio qualificado em decorrência da morte de uma paciente, de 45 anos, em maio do ano passado, essa é a terceira vez que ela é presa.


    Durante o cumprimento da medida judicial, realizada pela equipe de Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas, a biomédica informou estar passando mal. Diante dos fatos, os policiais acionaram o Serviço Móvel de Urgência (Samu), que a conduziu a uma unidade de saúde. A suspeita permanece internada sob escolta policial.
     

    O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) entrou com uma nova ação, com pedido de liminar, contra a decisão do juiz Ivan Pacheco que revogou a prisão da biomédica no dia 30 de abril deste ano. A expedição do alvará de soltura ocorreu no dia 2 de maio. Ela estava presa no presídio Floramar, em Divinópolis.
     

    A desembargadora Paula Cunha e Silva, da 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG), entendeu pela nova prisão preventiva de Lorena. Ela lembrou, na decisão, que Lorena descumpriu as medidas cautelares, tentando intimidar testemunhas e causar confusão durante o processo.
     

    Arguiu que ela, “reiteradamente, demonstrou disposição em descumprir decisões judiciais e prejudicar o andamento da ação penal de origem".
     


    Prisões


    A biomédica chegou a ser presa pela primeira vez em 8 de maio de 2023 – mesmo dia da morte de Iris Nascimento, em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas. Inquérito da Polícia Civil, aponta que a biomédica submeteu a paciente a uma lipoaspiração. 
     

    Ainda conforme as investigações, uma série de eventos levou a paciente ao óbito, como traumatismo abdominal, choque hemorrágico e intoxicação anestésica.
     

    No dia 23 de maio de 2023, Lorena deixou o presídio Floramar em Divinópolis e permaneceu em prisão domiciliar até agosto seguinte, quando foi liberada.
     

    Em março deste ano, por descumprir medidas cautelares impostas pela Justiça, ela voltou para o presídio. Na ocasião, a biomédica, que estava proibida de fazer publicações nas redes sociais, seguiu fazendo divulgações, além de comentar sobre o inquérito em curso contra ela.
     

    No dia 30 de abril, o juiz da Primeira Vara Criminal Ivan Pacheco revogou a prisão alegando que o tempo de recolhimento foi suficiente para demonstrar que o Poder Judiciário está atento ao cumprimento e descumprimento de suas ordens.
     

    “Enfim, depois de mais de um mês afastada do convívio familiar e social por desrespeito a uma obrigação fixada por este juízo, tenho que a acusada se encontra preparada para acompanhar a tramitação do feito em liberdade, sem interferir – ou tentar novamente fazê-lo”, afirma o juiz na decisão.
     

    No dia 02 de maio, ela deixou o presídio e retornou à Nova Lima, onde está morando.
     


    O caso


    Iris Nascimento Martins morreu no dia 8 de maio de 2023, em Divinópolis, depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória durante um procedimento estético na clínica da biomédica. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a socorrê-la e a levou para o Complexo de Saúde São João de Deus. Contudo, ela morreu.
     

    Em outubro do ano passado, a Polícia Civil a indiciou por homicídio qualificado. O delegado responsável pelo caso, Marcelo Nunes, apontou duas qualificadoras que corroboram o indiciamento.
     

    "Por motivo torpe, porque ela só visava o lucro. As planilhas não têm dados científicos do paciente, apenas questões financeiras. Pena mínima de 12 a 30 anos. Traição, ela enganava os pacientes. Ela falava que não era procedimento invasivo. Só no corpo de Iris foram 12 infusões. Se isso não é invasivo, o que é então? Ela enganava as pacientes (...)."
     

    Ao contrário do serviço "vendido" - lipolaser, a vítima tinha 12 perfurações, 10 no abdômen e duas nos glúteos.
     
     
    A reportagem entrou em contato com o advogado de defesa Tiago Lenoir, porém não obteve retorno até a publicação desta matéria.