segunda-feira, 13 de abril de 2026

Paciente que teve gaze esquecida no abdômen após cirurgia recebe R$ 30 mil em indenização

 

Atualizado segunda-feira, 13 de abril de 2026

Da redação

A 3ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) manteve, em decisão unânime, a condenação solidária de um cirurgião autônomo e do Hospital Leforte S.A. ao pagamento de R$ 30 mil por danos morais a um paciente que teve uma gaze esquecida em seu abdômen após cirurgia de correção de hérnia. O procedimento foi realizado em maio de 2023, em São Paulo, nas dependências do hospital, e a falha só foi descoberta cerca de um ano depois, quando uma nova cirurgia removeu o material do interior do corpo do paciente.

Nos meses seguintes à operação, o homem passou a sentir dores intensas, inchaço e secreções na região operada. Ao consultar outro médico em Brasília, realizou exames de imagem que identificaram a presença de corpo estranho no local. Em maio de 2024, uma segunda cirurgia retirou a gaze do abdômen, comprovada por exame anatomopatológico como remanescente do primeiro procedimento, evidenciando o erro cometido durante a intervenção original.

Laudo pericial aponta falha coletiva na conferência de materiais

O laudo pericial foi determinante para o julgamento. O perito concluiu que houve erro evidente na conferência de materiais intracavitários, apontando que o campo destinado à identificação e à quantificação do material cirúrgico estava em branco no documento de controle, mesmo constando que a conferência havia sido realizada. O profissional ressaltou que a responsabilidade pela falha é de toda a equipe, incluindo cirurgião, auxiliares e enfermagem, e não de um único profissional.

Com base no laudo, o colegiado reconheceu que o esquecimento de objeto dentro da cavidade do paciente durante uma cirurgia caracteriza erro médico inequívoco. O dever de reparação foi estendido ao hospital por ter disponibilizado a equipe de enfermagem para o ato cirúrgico, equipe essa que também falhou na conferência do material ao final do procedimento.

Partes recorreram, mas valor foi mantido pelo tribunal

O paciente havia pedido a condenação solidária no valor de R$ 50 mil por danos morais. A sentença de primeiro grau acolheu o pedido, mas fixou a indenização em R$ 30 mil. Insatisfeitas com o resultado, ambas as partes recorreram ao TJDFT. O médico pediu o afastamento de sua responsabilidade e, subsidiariamente, a redução do valor da condenação. O paciente, por sua vez, requereu o aumento da indenização ao patamar originalmente solicitado.

A 3ª Turma Cível rejeitou ambos os recursos e manteve integralmente a sentença de primeiro grau. O colegiado entendeu que o valor de R$ 30 mil está em conformidade com os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, levando em conta a extensão dos danos sofridos pelo paciente e a gravidade da falha cometida pela equipe cirúrgica.

A decisão foi tomada de forma unânime pelos membros da turma, sem divergências quanto à responsabilidade solidária dos réus ou ao montante fixado a título de indenização por danos morais.

O processo tramita sob o número 0752749-41.2024.8.07.0001.

Autor

domingo, 12 de abril de 2026

Pela 1ª vez, UFMG se desculpa por usar corpos de hospital de Barbacena

 Pedido foi feito publicamente pela universidade de Minas após 45 anos do episódio sombrio que ficou conhecido como 'Holocausto brasileiro'

Estudante de Jornalismo na PUC Minas. No Estado de Minas desde 2023. Repórter de Gerais
10/04/2026 


Dados apontam que Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, o Hospital Colônia, vendeu quase 1.900 corpos de pacientes para 17 faculdades de medicina do país entre 1969 e 1981crédito: Arquivo EM


Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pediu desculpas, publicamente, 45 anos após utilizar corpos de vítimas do Hospital Colônia de Barbacena em atividades de ensino. A nota, divulgada nessa quinta-feira (9/4), reconhece a prática como uma violação à dignidade humana e foi assinada pela então reitora da instituição, Sandra Goulart, em 18 de março. A universidade ainda assumiu o compromisso de adotar medidas de reparação.

Em comunicado, a UFMG admitiu ter adquirido corpos da unidade psiquiátrica em Barbacena, no Campo das Vertentes, para as aulas de anatomia na Faculdade de Medicina e no Instituto de Ciências Biológicas (ICB). Na época, era comum as pessoas que morriam serem enterradas como indigentes ou destinadas às instituições de ensino.

"A Universidade Federal de Minas Gerais pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas”, diz a nota. A UFMG ainda reconheceu não só o uso nas atividades, mas também a compra dos cadáveres para esse intuito

A universidade afirmou o comprometimento com ações de reparação conforme recomendado pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão da Procuradoria da República de Minas Gerais (MPF). Entre os trabalhos, estão a criação de espaços de memória na Faculdade de Medicina, com apoio de grupos da luta antimanicomial; a restauração do livro de registro de recebimento de cadáveres e a inclusão de disciplinas sobre internação e compra de corpos do Colônia no Departamento de Anatomia e Imagem.

Além disso, a UFMG realiza anualmente, desde 2013, a Semana de Saúde Mental e mantém, há 26 anos, o programa Vida Após a Vida, baseado na doação voluntária e consentida de corpos, alinhada a padrões internacionais para a obtenção de cadáveres destinados às aulas do curso.

"Este pedido de desculpas por parte da UFMG tem como objetivo manter viva essa memória, pois ela é fundamental para que a desumanização e a objetificação das vidas e dos corpos dessas pessoas não voltem a ser naturalizadas", reforça a universidade.

Mais de 60 mil vítimas

O pedido de desculpas, feito pela primeira vez, relembra o episódio de violação de direitos humanos cometidas durante todo o século 20 dentro do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, que ficou conhecido como "Holocausto brasileiro", graças à obra da jornalista Daniela Arbex. 

O Hospital Colônia foi palco de internações em massa, em sua maioria sem diagnóstico, que resultaram na morte de mais de 60 mil pessoas. O levantamento, que consta no livro de Daniela Arbex, indica a venda de 1.857 corpos de pacientes para 17 faculdades de medicina do país entre 1969 e 1981.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Procedimento nos glúteos acaba em morte e prisão decretada

 Caso ocorreu em 2025 no Recife; médico não foi localizado e decisão aponta risco à saúde pública


Publicado

  

em

 

 Mulher de 46 anos morreu horas após intervenção; Justiça decretou prisão preventiva do médico responsável

A Justiça de Pernambuco determinou a prisão preventiva de um médico investigado pela morte de uma mulher após um procedimento estético no Recife.

A decisão foi assinada no fim de março de 2026, mais de um ano após o caso. O profissional não foi localizado e é considerado foragido.


Decisão e andamento do processo

A ordem partiu da 3ª Vara do Tribunal do Júri da capital, com base no Código de Processo Penal. A Justiça apontou risco à saúde pública e possibilidade de repetição da conduta. No mesmo despacho, foi marcada a audiência de instrução para 22 de setembro de 2026, às 8h30, em formato híbrido.

O que aconteceu

O caso ocorreu em janeiro de 2025. A paciente, de 46 anos, passou por um procedimento de harmonização na região dos glúteos em uma clínica da cidade.

Após ser liberada, relatou dores e foi encontrada morta horas depois, em casa. A ocorrência foi registrada pela Polícia Civil como morte a esclarecer.

Pontos sob investigação

Segundo familiares, o procedimento pode ter envolvido o uso de polimetilmetacrilato (PMMA), substância com uso restrito e sem indicação para fins estéticos. Outros fatores também entraram na apuração:

  • possível uso de material inadequado
  • situação irregular do registro profissional
  • estrutura da clínica incompatível com o procedimento

Na época, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco informou que o médico não possuía inscrição ativa. A fiscalização também indicou que o local não tinha condições adequadas para esse tipo de intervenção

O que diz a defesa

A defesa informou que vai recorrer da decisão e que o médico está à disposição da Justiça por meio dos advogados. O processo tramita sob sigilo.

Segundo o advogado, a paciente não apresentava contraindicações e realizou exames antes do procedimento, sem indicação de risco. A equipe sustenta que a intervenção seguiu protocolos técnicos e que os fatos serão esclarecidos no andamento da ação.

O médico não irá se manifestar publicamente enquanto o caso estiver em análise.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Menino de 9 anos morre após buscar atendimento médico pela 7ª vez: 'Foi agravando, foi piorando', diz família

 João Guilherme Jorge Pires bateu o joelho em uma pedra enquanto brincava em casa, no dia 2 de abril. A Polícia Civil e a Sesau investigam se houve falha ou negligência nos atendimentos prestados ao menino.

Por Débora RicaldeThais Libni, g1 MS

Denúncia de negligência na capital

Denúncia de negligência na capital


João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, morreu na madrugada desta terça-feira (7), em Campo Grande, depois de buscar atendimento médico sete vezes em duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e na Santa Casa da capital. Segundo a família, no último atendimento, passaram cerca de 30 minutos entre a chegada ao hospital e a confirmação da morte.

O caso foi registrado na Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) do Centro como homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) apuram se houve falha ou negligência nos atendimentos prestados à criança.

Idas e vindas de UPA e hospital

Uma sequência de atendimentos médicos marcou os últimos dias de vida da criança em Campo Grande. Veja abaixo, em ordem cronológica, como foram as idas às unidades de saúde, conforme informado pelos familiares à polícia:

  • Quarta-feira (2 de abril) - Após cair e bater o joelho enquanto brincava, o menino foi levado à UPA Tiradentes. No local, passou por consulta e realizou exame de raio-X. Sem lesões aparentes, foi liberada com prescrição de dipirona e ibuprofeno;
  • Quinta-feira (3 de abril) - Como o quadro não apresentou melhora, a criança foi levada ao IPA Universitário. Após nova avaliação médica, recebeu a mesma medicação e foi novamente liberada;
  • Sexta-feira (4 de abril) - A família procurou atendimento na UPA Universitário. A criança foi medicada com uma injeção e se queixava de dores no peito. Segundo relato, a situação foi tratada como ansiedade, e o menino foi liberado;
  • Domingo (5 de abril), à tarde - A criança retornou à UPA Universitário, onde permaneceu em observação. Um novo exame de raio-X identificou uma lesão na perna, na região do joelho. A orientação foi procurar a Santa Casa no dia seguinte para imobilização;
  • Segunda-feira (6 de abril) - Já na Santa Casa, a criança teve a perna esquerda imobilizada com uma tala e foi liberada;
  • Noite de segunda-feira (6 de abril), à noite - Em casa, a criança passou mal, desmaiou e chegou a ficar com coloração roxa. Ela foi levada desacordada à UPA Universitário, onde foi reanimada e entubada;
  • Morte na madrugada da terça-feira (7) - Em seguida, foi transferida para a Santa Casa, mas não resistiu. O óbito foi confirmado às 1h05.
Menino de 9 anos morre após sucessivas idas à UPA. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

Menino de 9 anos morre após sucessivas idas à UPA. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

Piora no quadro

"Foi agravando, foi piorando", disse ao g1 o cunhado da vítima, Michael Petrovich de Souza.

De acordo com o cunhado da vítima, os sintomas de João pioraram ao longo dos dias.

Michael contou que João reclamava de dor no peito e que, na noite de segunda-feira (6), o quadro piorou rapidamente.

"Quando eu entrei dentro do quarto, ele estava roxo e sem ar. Ele estava praticamente partindo em cima da cama", relembrou.

O menino foi levado às pressas para a UPA Universitário e, em seguida, encaminhado para a Santa Casa.

"Chegando na Santa Casa, foi questão de meia hora... e já veio a notícia que ele tinha falecido", disse o cunhado.

Caso em investigação

Após o registro do boletim de ocorrência, a Polícia Civil solicitou exame necroscópico. O caso deve ser encaminhado para a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca).

A delegacia especializada deve analisar a sequência de atendimentos nas unidades de saúde e apurar se houve negligência.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que o caso está sendo apurado com base em prontuários e registros médicos. Veja a nota na íntegra:

"A Secretaria Municipal de Saúde informa que o caso está sendo investigado, esclarece ainda que as informações estão sendo devidamente apuradas, com base em levantamentos de prontuários e registros médicos. Ressalta também que todas as responsabilidades serão rigorosamente verificadas e, caso sejam identificados eventuais desvios de conduta, as medidas cabíveis serão adotadas."

g1 também procurou a Santa Casa, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem.

Fundação lamenta morte

João Guilherme era assistido pela Fundação Ueze Zahran, que divulgou uma nota de pesar. A instituição afirmou que o menino era lembrado pela alegria, sensibilidade e amor pela música. Veja abaixo:

"É com profundo pesar que nos despedimos do querido João Guilherme Jorge Pires, aluno do Coral da Fundação Ueze Zahran em parceria com o Cica. João Guilherme deixa entre nós lembranças marcadas por sua alegria, sensibilidade e amor pela música, tocando o coração de colegas, professores e de toda a comunidade da Fundação. Neste momento de dor, manifestamos nossa solidariedade aos familiares, amigos e a todos que compartilharam de sua caminhada, desejando conforto, força e paz aos corações enlutados. Que sua memória permaneça viva através da música e dos momentos que tivemos a alegria de compartilhar."

Menino de 9 anos morreu ao procurar atendimento médico pela 7ª vez | G1