Publicado em 30/03/2016 às 15:39
Ariane e seu filho Francisco
Francisco tem um ano. Sua mãe, Ariane, leva o menino todo mês à pediatra, Doutora Maria Dolores. Consultas de rotina, para acompanhar o desenvolvimento do menino. Levava. A médica se recusa a continuar atendendo Francisco. A razão é a posição política dos pais da criança.
A mensagem que Maria Dolores mandou para Ariane foi a seguinte:
"Bom dia Ariane. Estou neste instante declinando em caratér irrevogável, da condição de Pediatra de Francisco. Tu e teu esposo fazem parte do Partido dos Trabalhadores (ele do Psol) e depois de todos os acontecimentos da semana e culminando com o de ontem, onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu estou sem a mínima condição de ser Pediatra do teu filho. Poderia inventar desculpas, te atender de mau humor, mas prefiro a HONESTIDADE que sempre pautou minha vida particular e pessoal.
Se quiser posso fazer um breve relatório do prontuário dele para tu levar a outro pediatra.
Gostaria que não insistisse em marcar marcar consultas mais.
Estou profundamente abalada, decepcionada e não posso de forma nenhuma passar por cima dos meus principios. Porto Alegre tem muitos pediatras bons. Estarás bem acompanhada
Espero que compreendas."
Ariane é suplente de vereadora pelo PT, em Porto Alegre. Mesmo que Francisco fosse filho de psicopatas assassinos, a posição de Maria Dolores é um absurdo. O que tem a criança a ver com os pais? O moleque é petista? Amigo do Lula?
E aliás, e se fosse? Seja a consulta de rotina ou emergência, tem um médico o direito de discriminar quem vai atender? Pela cor, idade ou gênero do paciente? Pelo partido que vota ou time que torce? Maria Dolores nem disponibilizou o prontuário de Francisco para os pais, para que eles possam levar a outro médico.
Isso tudo é uma infâmia.
Mas tudo sempre pode piorar. E frequentemente piora.
Ariane denunciou Maria Dolores ao Conselho Regional de Medicina, o órgão dos próprios médicos que julga casos relativos à ética. Se valerem alguma coisa, cassam o diploma dessa mulher.
Quem saiu em defesa dela? Acredite: o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes. Em entrevista ao jornal Diário Gaúcho, declarou: "Ela tem a nossa admiração".
Como é que é?
Para Mendes, a postura da médica foi "absolutamente ética... Se tem alguma coisa que te incomoda e que tu achas que vai prejudicar a tua relação com o teu paciente, se tu não vais se sentir confortável, se não vai ser prazeroso para ti atender aquela pessoa, tu deves dizer para ela francamente: olha, prefiro que tu procures um colega."
Se você não se sente confortável com um paciente porque ele é corintiano, vesgo, paraibano ou tucano, a postura ética é se negar a atender? Isso lá é coisa que o presidente de um sindicato que representa os médicos possa dizer? E manter a função? E manter o diploma?
Você, caro leitor antipetista, pode perfeitamente detestar Lula e torcer pelo impeachment de Dilma. É seu direito democrático. Agora imagine por um segundo que a história fosse o contrário: uma médica petista se recusando a atender uma criança, porque o bebê é filho de um eleitor do PSDB. E o presidente do sindicato aplaudisse. É absurdo ou não é?
Democracia é conflito abrandado por regras de civilidade, comuns a todos. Quando você se recusa a aceitar o outro porque ele é diferente de você, não está exercendo seu "direito". Está negando o direito do outro. Essa é a prática das ditaduras, do nazismo, do stalinismo. Quando vindo de um médico - que se nega a atender um bebê! - é ainda mais repulsivo.
Essa história sintetiza exatamente o que há de mais errado sobre a situação que vivemos. Anos de discurso cada vez mais agressivo - dos dois lados - criaram um clima de "se você não está com a gente, está contra a gente", que justifica cada vez mais preconceito, ignorância, violência. Outro dia bateram num cachorro na rua porque estava com uma bandana vermelha...
Escrevi aqui semana passada que ganhe quem ganhar a queda de braço que hoje paralisa o país, vencedores e derrotados terão que conviver no dia, mês, anos seguintes. O final era assim:
"Entendo que a juventude tenha fantasias revolucionárias em que nos livramos de "tudo que isso que está aí", seja "o que está aí" o que for. Mas adultos não têm esse direito. Você pode fantasiar com um Brasil sem o PT. Ou um Brasil sem ninguém para se opôr ao PT. Pode fantasiar com uma solução imediata e definitiva para o Brasil. Ou até com uma explosão, um momento mágico que nos faça começar do zero.
É só fantasia. O Brasil será o que fizermos dele - com o povo que temos, a elite que temos, os políticos e policiais e professores e juízes que temos. Essas pessoas estarão conosco por muitos e muitos anos. O Brasil do futuro terá Sarney, Collor, Lula, FHC, Dilma etc; seus filhos, netos, apadrinhados. Teremos que fazer um país melhor com a presença de "tudo isso que está aí".
É só fantasia. O Brasil será o que fizermos dele - com o povo que temos, a elite que temos, os políticos e policiais e professores e juízes que temos. Essas pessoas estarão conosco por muitos e muitos anos. O Brasil do futuro terá Sarney, Collor, Lula, FHC, Dilma etc; seus filhos, netos, apadrinhados. Teremos que fazer um país melhor com a presença de "tudo isso que está aí".
Faltou dizer que não dá para fazer um país melhor para a geração do Francisco aceitando a postura imoral, imbecil de gente como Maria Dolores e Paulo de Argollo Mendes. O caminho para o Brasil que merecemos exige o exercício diário da tolerância. Mas nunca, jamais com os intolerantes.
Negar atendimento a um bebê porque a mãe é do PT é imbecil e imoral – André Forastieri – R7
Negar atendimento a um bebê porque a mãe é do PT é imbecil e imoral – André Forastieri – R7

Respeito sua opinião, mas discordo totalmente!!
Não foi só uma "consulta", foi a forma discriminatória com que mãe e filho foram tratados por essa médica.
Ela agiu de forma covarde.
O que a impede de realizar esse mesmo procedimento em caso de urgência?
Quer dizer que eu, como advogado, vou abandonar meus clientes por eles não possuírem a mesma ideologia política que a minha ou "perder" a causa?
Essa médica não tem um pingo de solidariedade.
Deveria aprender com os anjos de jaleco do MSF.
E tem pessoas que são contra o programa "Mais Médicos"…continuar lendo
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VII - O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente.
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Compreendo a empatia dos colegas, porém a médica possui…continuar lendo
Não me parece que tenha sido prestação de serviços que contrarie os ditames da consciência do profissional (que a meu ver também estaria equivocada), mas recusa de atendimento a quem manifesta ideologia divergente da sua. Ou seja, intolerância.
Não é "síndrome de Robin Hood" e sim "tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida de suas desigualdades”"
Obrigado pelo comentário.
Ela pode perfeitamente estar se fazendo de vítima a fim de prejudicar a médica por outras razões, inclusive pessoais, por vingança ou mesmo de autopromoção.
O apelativo de ser uma criança não faz da palavra da mãe a verdade suprema. Todo mundo lê sobre criancinha e já fica histérico, já querem crucificar a médica sem nem ter ouvido ela.
É por causa dessa histeria em torno de criancinhas que aconteceu uma das maiores injustiças deste país:continuar lendo
Claro, que, resguardada a proporção do ato infeliz praticado, não se deva tratar de suspensão de registro. Mas, decerto, que ao menos advertida ela merece ser, pelo conselho.
O mínimo ético, nesse caso, é comunicar (educadamente, o que não parece ter sido o caso) a objeção.
Há muitos bons profissionais no mercado, para quê se encasquetar com o ruim?